"Meu país"
Meu país turístico de doce clima tão frio
De negras neves a caiar os montes
E os prados cansados
Tenho uma capa de degredo larvas de água triste
Nos cabelos húmidos
E pés descalços pelos sapatos do desengano
Meu país de água com o mar à beira
Meteste-me no fogo do ventre um coração parado
Pelas águas geladas de poluídos rios e gastos mares
E sou (fui) a emigrada presente que nem parte nem partiu
Não partirá
Arbusto mal plantado no suicídio do vento
Cobrindo o rosto com as folhas das mãos.
Poema do livro "Voz Nua" que David Mourão-Ferreira descreveu como “Poemas de humanidade profunda e de admirável simplicidade, em que o ‘eu’ e o ‘mundo’ solidariamente dialogam entre si, quase sempre em surdina, só de espaços a espaços e de leve alterando a voz, ora um ora outro. Poemas em que miraculosamente a memória conserva toda a concreta flagrância, toda a imediata frescura de objectos, de seres ou de situações remotas; em que a visão do quotidiano, embora dorida, e por ácida que às vezes pareça, nunca chega a ser amarga; e em que o ritmo, só aparentemente caprichoso ou desarticulado, se adapta afinal perfeitamente, através da novidade e da profusão das imagens que vão surdindo , à expressão de uma quase mágica sensibilidade — que não poderia ser senão a de Matilde Rosa Araújo”.
A 20 de Junho de 1921, nascia Matilde Rosa Araújo que viria a ser pedagoga e escritora especializada em literatura infantil e que enquanto cidadã se dedicou ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus naturais direitos. Foi distinguida com diversos prémios literários e em 2004 foi agraciada com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.